Passei meus três últimos anos na escola, completamente isolada.
Trabalhos em grupo, exercícios em dupla, tudo eu fazia sozinha. No Ensino Médio eu evoluí, de crises momentâneas, passei a ter
Síndrome do Pânico, que me rendia
ataques de pânico quase que diariamente, normalmente no horário de entrar,
intervalo e saída, na escola. Porque nessas horas é que ocorriam o tumulto de
alunos, e muitos conversando, outros
brigando, gritando, rindo. Esses que sorriam, pra mim eram os piores. Calma.
Deixa eu me explicar. A sensação que eu
tinha ao passar por um grupo de pessoas sorrindo, era que o motivo da graça
seria eu, que estavam rindo de mim, dos meus defeitos físicos, do meu jeito
anormal de ser e pensar, da maneira ridícula que eu me vestia. Eu era do tipo
que nenhum outro adolescente queria usar
como referência.
Passar por ataques de pânico
frequentes foi a pior experiência da minha adolescência. Eu corria pro
banheiro, me trancava e só depois que eu me acalmava eu saia de lá. Sempre
suando demais. Minha camiseta da escola ficava completamente molhada. O que me
causava mais constrangimento, por ter que passar pelos alunos e alunas sempre
bem arrumados, em ordem, sem suor. O caminho do banheiro até a sala de aula
parecia demorar uma eternidade, as pernas mal conseguiam seguir em frente,
tremiam, como as mãos. O fôlego ainda não estabelecido totalmente, o coração
ainda acelerado. E a terrível sensação de estar sendo observada e
ridicularizada por todo mundo que estava ali.
Fui diagnosticada por uma psicóloga, que trabalhava em um programa
ambiental para jovens. Fui por ela encaminhada a um psiquiatra e então ela teve
que chamar minha mãe para "conversar". Eu morri de medo de ser
"exposta" pra minha família. Já não bastava ser a estranha na minha vida
escolar, não queria ser a estranha na
minha família. Eu supliquei, para que nada fosse dito à minha mãe. Então a
conversa não passou de uma orientação
psicossocial. Nesse mesmo tempo também descobri que minhas manias, não
eram apenas manias, era Transtorno Obsessivo Compulsivo, e que minha mudança
repentina de humor não era T.P.M , e sim bipolaridade, bem normal para uma
jovem anormal. Fiz um ano de
"terapia", que foi o tempo em que estive no programa. Segunda-feira
era o dia em que a psicóloga e eu "conversávamos". Eu odiava, mas era
necessário para me manter no programa, que eu adorava.
Depois tive que aprender a conviver com isso. Sempre me escondendo e
sofrendo sozinha, durante anos. Não ia a festas da família, shows e evitava
sempre situações que eu sabia, iria desencadear uma crise de pânico.
Com tudo isso, sempre pude contar nos dedos de apenas uma das mãos
quantas pessoas se aproximavam de mim, quantas pessoas eu consegui manter uma
amizade. Mas tudo bem, pois essas mesmas pessoas, de tão especiais por me
aceitarem desse jeito que sou, são as mesmas já citadas anteriormente, elas
permanecem na minha vida até hoje.
As coisas melhoraram um pouco depois que comecei a trabalhar. Entrei em
uma empresa para ser telefonista e em pouco tempo já estava no Departamento
Pessoal, que me fazia ter contato com muitas outras pessoas. Cativei e fui
cativada por muitas pessoas ali. Adquiri certo senso de humor também nessa
época. E por um bom tempo eu fiquei ali e evolui como profissional e também
como pessoa, pois ali conheci diversas personalidades, e absorvi um pouco de
cada um ali.
Tive outros empregos em áreas administrativas, mas em nenhum eu consegui
ficar tanto tempo como fiquei no primeiro.
Depois voltei a procurar trabalho, mas eu passava muito mal em
entrevistas e processos seletivos. Certo dia vi um anúncio no jornal, para
trabalhar em uma escola de idiomas como recepcionista. O anúncio pedia para o
candidato comparecer com currículo tal dia e tal hora. E eu fui. Cheguei dez
minutos antes e já havia dezenas de moças, todas muito bonitas e arrumadas,
cabelos perfeitos, sorriso prefeito, tudo perfeito. E eu com calça social preta
e blusa básica, cabelo ruim e preso ao alto da cabeça, com frizz, resultado do
meu descuido, os dentes tortos e com aparelho ortodôntico há meses sem fazer manutenção, por falta de dinheiro. Eu
não pensei em nenhum momento na habilidade
de qualquer uma delas, nem na minha. Eu só conseguia pensar que de
maneira alguma eu ia conseguir aquela vaga. E fiquei imaginando todas elas
pensando: -O que essa garota ridícula ainda está fazendo aqui. Nesse momento
olhei para duas pessoas, sorrindo e então tive um ataque de pânico, um dos mais
terríveis, pois eu não consegui fugir, eu simplesmente caí no chão, ali, no
meio de todas aquelas pessoas. E eu fiz o que eu não queria naquele momento.
Chamar a atenção. E quando me vi no meio de todas aquelas pessoas me olhando,
eu chorei feito criança. Eu queria apenas morrer.
Fiquei três anos desempregada. Eu não saía de casa para quase nada. Não
ia ao mercado, padaria, açougue, banco, ia apenas algumas vezes à casa da minha
mãe que era no bairro vizinho. E só ia lá por saber que lá era um "local
seguro". Tive Fobia Social. E demorei alguns anos para conseguir enfrentar
isso e voltar a frequentar esses lugares novamente.
Depois de um ano do nascimento do Arthur, voltei a trabalhar. Em uma
pizzaria, a qual o dono era o marido da minha prima. Eu comecei bem animada. E
no meu segundo dia de trabalho, a pizzaria foi assaltada e pra variar um
pouquinho, tive um ataque de pânico que ficou registrado, em no mínimo, três
ângulos diferentes, pelo circuito de câmeras da pizzaria. Em menos de um mês
fui assaltada três vezes, uma delas no ponto de ônibus. Eu saia de madrugada e
não era seguro uma mulher ficar sozinha no ponto de ônibus. Depois desse assalto no ponto de ônibus,
fiquei com medo de todas as pessoas que passavam por mim enquanto eu estava lá.
Novamente cativei e fui cativada por algumas pessoas, clientes,
fornecedores, funcionários. Eu gostava de tudo aquilo. Mesmo com o estresse dos
finais de semana. Poder ajudar novamente na renda da família e ter um dinheiro
para mim, me deixava bastante alegre.
Listei alguns objetivos. E até consegui cumprir alguns deles. Eu tinha
uma dívida grande que acumulou juros enquanto eu não trabalhava, e consegui com
muito esforço pagar toda essa dívida. Fiquei orgulhosa de mim mesma por isso,
eu sei, é estúpido, mas eu fiquei. E também me habilitei para dirigir carro e
moto.
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