quarta-feira, 5 de março de 2014

2. Sobre amizades, trabalho e psique

Passei meus três últimos anos na escola, completamente isolada. Trabalhos em grupo, exercícios em dupla, tudo eu fazia sozinha.  No Ensino Médio eu  evoluí, de crises momentâneas, passei a ter Síndrome do Pânico, que me  rendia ataques de pânico quase que diariamente, normalmente no horário de entrar, intervalo e saída, na escola. Porque nessas horas é que ocorriam o tumulto de alunos, e muitos  conversando, outros brigando, gritando, rindo. Esses que sorriam, pra mim eram os piores. Calma. Deixa eu me explicar.  A sensação que eu tinha ao passar por um grupo de pessoas sorrindo, era que o motivo da graça seria eu, que estavam rindo de mim, dos meus defeitos físicos, do meu jeito anormal de ser e pensar, da maneira ridícula que eu me vestia. Eu era do tipo que nenhum outro adolescente  queria usar como referência.

 Passar por ataques de pânico frequentes foi a pior experiência da minha adolescência. Eu corria pro banheiro, me trancava e só depois que eu me acalmava eu saia de lá. Sempre suando demais. Minha camiseta da escola ficava completamente molhada. O que me causava mais constrangimento, por ter que passar pelos alunos e alunas sempre bem arrumados, em ordem, sem suor. O caminho do banheiro até a sala de aula parecia demorar uma eternidade, as pernas mal conseguiam seguir em frente, tremiam, como as mãos. O fôlego ainda não estabelecido totalmente, o coração ainda acelerado. E a terrível sensação de estar sendo observada e ridicularizada por todo mundo que estava ali.

Fui diagnosticada por uma psicóloga, que trabalhava em um programa ambiental para jovens. Fui por ela encaminhada a um psiquiatra e então ela teve que chamar minha mãe para "conversar". Eu morri de medo de ser "exposta" pra minha família. Já não bastava ser a estranha na minha vida escolar, não queria ser a  estranha na minha família. Eu supliquei, para que nada fosse dito à minha mãe. Então a conversa não passou de uma orientação  psicossocial. Nesse mesmo tempo também descobri que minhas manias, não eram apenas manias, era Transtorno Obsessivo Compulsivo, e que minha mudança repentina de humor não era T.P.M , e sim bipolaridade, bem normal para uma jovem anormal.  Fiz um ano de "terapia", que foi o tempo em que estive no programa. Segunda-feira era o dia em que a psicóloga e eu "conversávamos". Eu odiava, mas era necessário para me manter no programa, que eu adorava.
Depois tive que aprender a conviver com isso. Sempre me escondendo e sofrendo sozinha, durante anos. Não ia a festas da família, shows e evitava sempre situações que eu sabia, iria desencadear uma crise de pânico.

Com tudo isso, sempre pude contar nos dedos de apenas uma das mãos quantas pessoas se aproximavam de mim, quantas pessoas eu consegui manter uma amizade. Mas tudo bem, pois essas mesmas pessoas, de tão especiais por me aceitarem desse jeito que sou, são as mesmas já citadas anteriormente, elas permanecem na minha vida até hoje.

As coisas melhoraram um pouco depois que comecei a trabalhar. Entrei em uma empresa para ser telefonista e em pouco tempo já estava no Departamento Pessoal, que me fazia ter contato com muitas outras pessoas. Cativei e fui cativada por muitas pessoas ali. Adquiri certo senso de humor também nessa época. E por um bom tempo eu fiquei ali e evolui como profissional e também como pessoa, pois ali conheci diversas personalidades, e absorvi um pouco de cada um ali.

Tive outros empregos em áreas administrativas, mas em nenhum eu consegui ficar tanto tempo como fiquei no primeiro.  Depois voltei a procurar trabalho, mas eu passava muito mal em entrevistas e processos seletivos. Certo dia vi um anúncio no jornal, para trabalhar em uma escola de idiomas como recepcionista. O anúncio pedia para o candidato comparecer com currículo tal dia e tal hora. E eu fui. Cheguei dez minutos antes e já havia dezenas de moças, todas muito bonitas e arrumadas, cabelos perfeitos, sorriso prefeito, tudo perfeito. E eu com calça social preta e blusa básica, cabelo ruim e preso ao alto da cabeça, com frizz, resultado do meu descuido, os dentes tortos e com aparelho ortodôntico há meses sem  fazer manutenção, por falta de dinheiro. Eu não pensei em nenhum momento na habilidade  de qualquer uma delas, nem na minha. Eu só conseguia pensar que de maneira alguma eu ia conseguir aquela vaga. E fiquei imaginando todas elas pensando: -O que essa garota ridícula ainda está fazendo aqui. Nesse momento olhei para duas pessoas, sorrindo e então tive um ataque de pânico, um dos mais terríveis, pois eu não consegui fugir, eu simplesmente caí no chão, ali, no meio de todas aquelas pessoas. E eu fiz o que eu não queria naquele momento. Chamar a atenção. E quando me vi no meio de todas aquelas pessoas me olhando, eu chorei feito criança. Eu queria apenas morrer.

Fiquei três anos desempregada. Eu não saía de casa para quase nada. Não ia ao mercado, padaria, açougue, banco, ia apenas algumas vezes à casa da minha mãe que era no bairro vizinho. E só ia lá por saber que lá era um "local seguro". Tive Fobia Social. E demorei alguns anos para conseguir enfrentar isso e voltar a frequentar esses lugares novamente.

Depois de um ano do nascimento do Arthur, voltei a trabalhar. Em uma pizzaria, a qual o dono era o marido da minha prima. Eu comecei bem animada. E no meu segundo dia de trabalho, a pizzaria foi assaltada e pra variar um pouquinho, tive um ataque de pânico que ficou registrado, em no mínimo, três ângulos diferentes, pelo circuito de câmeras da pizzaria. Em menos de um mês fui assaltada três vezes, uma delas no ponto de ônibus. Eu saia de madrugada e não era seguro uma mulher ficar sozinha no ponto de ônibus.  Depois desse assalto no ponto de ônibus, fiquei com medo de todas as pessoas que passavam por mim enquanto eu estava lá.


Novamente cativei e fui cativada por algumas pessoas, clientes, fornecedores, funcionários. Eu gostava de tudo aquilo. Mesmo com o estresse dos finais de semana. Poder ajudar novamente na renda da família e ter um dinheiro para mim, me deixava bastante alegre.  Listei alguns objetivos. E até consegui cumprir alguns deles. Eu tinha uma dívida grande que acumulou juros enquanto eu não trabalhava, e consegui com muito esforço pagar toda essa dívida. Fiquei orgulhosa de mim mesma por isso, eu sei, é estúpido, mas eu fiquei. E também me habilitei para dirigir carro e moto. 

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